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domingo, 25 de março de 2012

Impressões de São Luís - Parte II ou 'Liberdade, liberdade?!'


No próximo dia 13 de maio a abolição da escravatura chega aos 122 anos. Apesar de tudo o que foi negociado e tentado pela “minoria” negra liberta é dramático reconhecer em alguns pontos do Brasil o pensamento escravagista. Não é preciso ter olhos de antropologia para perceber que as coisas nunca andaram muito e que as etnias ainda vivem em cenário conflituoso mesmo num país conhecido internacionalmente como miscigenado.

São Luís, no Maranhão, é um destes pontos onde é fácil presenciar o abismo que ainda impera nas relações sociais tupiniquins. Guardo uma frase dita pela guia Lisandra em visita à Casa de Nhôzinho, no Centro Histórico da capital maranhense: “Os negros foram jogados nas ruas e precisaram fazer alguma coisa”.



Esse sentimento de excreção nunca tinha me ocorrido com tanta veemência. Faz muito tempo que nada no Brasil é realmente planejado e sempre caberá às futuras gerações dar conta de tudo. Viveremos com o estigma de sermos o país do futuro.

A falta de políticas ou planejamento social para a fase de libertação dos escravos foi crucial para o retrato da miséria que assola a nação. Hoje, precisamos discutir cotas e ver estampado nos jornais as vítimas da violência urbana, que aos poucos chega ao interior.

A pobreza ainda é negra no Brasil e pouco vejo espaço para que ela mude de cor. Visitar um lugar colonial como São Luís me serviu de grande lição. Nos shoppings, lojas, bares, botecos, a separação entre quem serve e quem é servido ainda é definida pela cor.

Ao contrário de outros lugares do Nordeste, raramente encontramos um negro em um ambiente social. Eles estão nos estacionamentos, balcões, ruas, alguns de rastafári, o que faz a situação se tornar ainda mais pitoresca. Um mau sinal.

Para o resto do mundo, os maranhenses sempre serão os “regueiros” filhos de Bob Marley no Brasil. Tudo será muito bonito até o ponto em que a burguesia for diretamente prejudicada pelo excesso no abandono de toda uma população. Que vota!

Garanto que a mesma exclusão não acomete somente os negros, mas também a população indígena, muito predominante, principalmente no interior do Estado.

Enfim, não nos faltam provas da ineficácia governamental do país, sempre atrelada à busca de realizações pessoais e corrupção. Poderia dizer simplesmente que é urgente o pensamento em políticas públicas para a população negra. Contudo enquanto não há ação, infelizmente encontraremos tantos renegados sociais nos servindo e o espírito do “Black is Beautiful” apenas no juízo.

domingo, 11 de março de 2012

A liberdade é a expressão da paixão

'I Want to Break Free' (abra o vídeo para ler o texto), já dizia a letra do grande John Deacon da minha amada banda Queen. 'Eu quero me libertar' e quem não quer?! Apesar de ser tida como uma referência ao mundo gay na visão dos que enxergam de cabresto, esta é uma daquelas verdades insólitas que chegam na mesa do bar na hora de pagar a conta.

É à ela que recorremos como estamos descontentes com o que nos rodeia, a liberdade. É engraçado que temos o malévolo ato de reclamar de tudo o que conseguimos. Sempre nos parece pouco e queremos ir além. Tão egoísta conosco somos, mas isso nos enche a boca de saliva. Queremos algo a mais, e este algo é a liberdade.

Liberdade para produzir, fazer do nosso jeito e, assim, colhermos um resultado lucrativo e criativo que se sobrepõe às expectativas da sociedade, que vivemos atrelados em busca da maior produção. Esta é a lógica utópica do capitalismo. Mas nos inserimos no mundo "real", das máquinas e da produção em massa. Portanto temos de nos adequar ao que os manuais dizem, sem que qualquer apelo mais individual possa surgir sem a batuta dos que se dizem "chefes" e que são tão subservientes quanto aqueles que adormecem no último patamar da pirâmide.

'Queremos nos apaixonar'. Um dos que hábitos que mais prazer me dá é ficar parado olhando a fila do banco, por exemplo. O que está por trás do saldo e do extrato daquelas pessoas que bufam nas escadas, nas calçadas... Já parou pra pensar que tudo que elas querem é ser amadas?! Tão amadas quanto você passou a vida inteira querendo ser. Esse é o capitalismo humano, que nos corrói diante do insucesso. Queremos partilhar nossas vitórias com alguém, e sermos abraçados, e sermos beijados, e fazermos sexo com uma única pessoa o resto da vida. Esta é a lógica das relações humanas, que nem sempre se concretizam. E o gosto marrento da cerveja que esquenta chega até a garganta. 'Queremos tanto nos apaixonar'.

A liberdade é a expressão da paixão. Assim como a aprovação é o resultado do estudo. Assim como a lei é o resultado do apelo e da discussão. Assim como a falta de atos é obtida pelo acúmulo de promessas. 'É estranho, mas é verdade', nadamos na contramão daquilo que realmente nos é importante e foi escrito por nós mesmos no nosso diário da vida. No dia 31 de dezembro, quando o ciclo se fechar, estaremos atentos para encontrar a tão sonhada vida eterna, repleta de paixão e liberdade de expressão. Mas ela não chega, ela nunca chegou e nunca vai chegar. 'I am, I was and I will be.

'Mas a vida continua', não dá tempo pra filosofar e esperar. A solução está na nossa vontade e no nosso foco. Quem segura o giz para traçar o caminho de Capitu é ela mesma. O nosso ainda está intacto e o medo nos assombra. O TOC desfaz o brilho da peça e o pó que escorre do taco nos faz sofrer. O que fazer? Algo há de ser feito. 'Eu tenho que me libertar'. #

domingo, 12 de fevereiro de 2012

O domingo e suas angústias

Viva a ansiedade e a espera por um bom dia de domingo. A folga almejada por 10 entre 10 cidadãos do mundo que não esqueceram que a existência não se resume ao trabalho. Como é bom pensar em um dia onde somos donos de nós mesmos e do nosso descanso.

Desde pequeno, na minha  cidade, descobri que o domingo é dia de se resguardar. Segunda-feira aparece sorrateira e perigosa, precisamos estar bem preparados para deflorá-la. As manhãs, com trilha sonora do Padre Zezinho, eram um prenúncio de um dia tranquilo. Que nem sempre era. Os percalços do álcool alheio ou uma briga entre vizinhos gostava de manchetar o dia de entrega à existência.

Seja de rede, cama, sofá, ou cadeira de balanço ele era vivido com intensidade. Não sei, sinceramente, o que faz uma pessoa idolatrar a labuta e sentir falta do estresse diário. Para mim, mais fundamental que o trabalho é a folga, o ócio produtivo, que me permite acordar da Matrix e enxergar o que está por detrás das entrelinhas. Caso meus chefes percebessem isso me dariam folgas e folgas, visto que tal combustível elevaria exponencialmente minha criatividade.

Mas, nem sempre de glórias os domingos são formados. A presença da mídia e a vontade de se fazer tudo em pouco tempo tem deixado a humanidade ansiosa. Essa autodestruição faz com que cheguemos a conclusão de que todo o tempo é pouco. E que precisamos ganhar mais dinheiro. E que precisamos fazer mais horas extras para que as datas comemorativas cheguem logo e passem logo.

Há muito não percebo nos olhares as expectativas das grandes comemorações. É carnaval e as praças não têm decoração. As crianças não compraram fantasias. Ninguém tocou marchinha. E o comércio não pára. Assustou-me um anúncio da festa de ressaca do Carnaval. Estamos matando a vida de véspera. Estamos ejaculando precocemente as possibilidades.

Um teórico, a quem me afeiçoei nos últimos tempos, anda dizendo que não possuímos condições suficientes de manter laços ou amar alguém. "Ame ao próximo como a si mesmo". A frase perde o sentido quando nem sabemos o que é amor e, segundo, quando não calculamos o real amor que temos por nós mesmos.

Enquanto o domingo está aí de braços abertos para nós. Passeios públicos, praias, bicicletas, comidas deliciosas, sorrisos de mãe. Estamos aqui, lendo este texto. Sei o quanto a audiência é importante para um trabalho como o meu, mas estou certo de que se meus leitores deixassem meu blog por uns instantes para viver a vida e olhar nos olhos de quem amam, eles voltariam mais e mais vezes, compartilhariam comigo todos os seus anseios e estariam debatendo arduamente o que nos falta para a suprema felicidade.

Lembro agora de uma menina que quer tudo e nada ao mesmo tempo. Ela já pensou em tudo o que seria possível para tirá-la da angústia da ansiedade e ser dona de sua própria vida. Mas compartilha com meios que não lhe trazem as respostas suficientes. Pobre.

Enfim, mais um domingo se passou e mais um domingo chegará. A semelhança é que cada semana que passar vamos ouvir de todos que este dia já não é mais suficiente. A existência já não é mais suficiente. O que nos resta é a ansiedade de viver o que está por vir a cada novo minuto.
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Um dia de domingo. Quando o dia amanhece esticado, sem pressa e com vontade de chegar à conclusão de que nada existe além da sua cama. Cafuné de lado, sorrisos sonolentos de outro. Vamos esperar a natureza. Pé com pé. Perna na perna. Zumbidos e agrurinhas. Tão fofinhas e irresistíveis.


Sinto o sabor da manhã, os raios de sol, como naquela música onde os pingos da chuva bailam como Fred Astaire. Vem o 'white coffee' com uma amanteigada torrada e os assuntos que não querem calar. A cantora que morreu, o jogo que está por vir, as histórias contadas durante toda a semana, as farras que fazem a diferença, os projetos para o futuro e a esperança de muitos e muitos domingos.


Um cochilo daqui, ou uns posts no Facebook?! É bom olhar os amigos por trás da tela de vidro quando você quer estar sozinho. Fazendo seu dia. Olhando para os livros, lendo um pouco e interpretando muito. Nada de muitas roupas, um shortinho de jogador, sem camisa mesmo. O que não pode faltar é o cabelo assanhado, que se penteia à espera do almoço.


Banquete regado a uma cervejinha e pelo ar delirante de quem se ama. Tem de tudo um pouco. Drama, emoção, carinho, temor. Tem de tudo que a vida faz novela e que dá gosto de cantar. É um caminho perverso e gostoso até o final da tarde. Chega a concentração. Um pouco de TV ou DVD. E lá se vai o domingo melancólico. O dia de descanso que ninguém descansa. O que há de errado?! Eis o mistério da fé. Eis a verdade da existência.


Tudo é lindo e ousado. Mas poderia ganhar cores ainda mais vibrantes se não permanecessem somente no áureo e fumacento mundo das especulações. Que ingrato então?! 

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

De quantos banheiros precisamos?!

A imprensa nacional se mobiliza para tratar de um assunto, que na maioria das vezes é "encardido", pelo simples fato de não haver um planejamento eficiente para quebrar tabus no Brasil. O cartunista da Folha de S. Paulo, Laerte, procurou a Justiça de São Paulo para alegar discriminação após ser impedido de entrar em um banheiro feminino.

Laerte, que há poucos anos aderiu à tendência crossdressing foi abordado por uma cliente de um restaurante que se sentiu incomodada de dividir o lavabo com um homem travestido de mulher. O que há de novo nisso? Nada. Apenas nos deparamos com mais uma situação em que as raízes culturais brasileiras nos impedem de racionalizar uma questão, muitas vezes bem resolvida em outros polos, até no próprio país.

Não é novidade alguma para moradores, por exemplo, do interior do Nordeste dividir espaços públicos com pessoas de orientação sexual opostas. Gays, lésbicas, travestis, transsexuais e heterossexuais conseguem compartilhar uma boa leva de lugares sem conflito explícito. Muitas vezes, quem se diz prejudicado, como no caso de Laerte apenas ri da situação, mas entende que em âmbito coletivo o que mais importa é a boa convivência.

Tal característica intrínseca a algumas comunidades possibilitam uma melhor convivência entre as diferenças. Obviamente, tal pensamento tomado em coletivo às vezes não condiz com a opinião individual. São inúmeros os casos de violência contra homossexuais, até nos cantos mais longínquos do Sertão. Mas quando a situação ganha a esfera pública, há um pouco mais de complacência quanto à diversidade.

Não é comum se deparar com casos absurdos de desumanização gratuita contra travestis em cidades interioranas, como na Avenida Paulista, pedaço de chão mais cosmopolita da América Latina, como se gosta de dizer. No interior, os transsexuais são tratados como uma casta diferente na sociedade. Eles tem seu poder, nem sempre bem explorado, tanto por quem convive quanto por eles próprios. Mas sobretudo são respeitados e até mesmo defendidos, inclusive, por quem se julga mais conservador.

Um bom exemplo dessa relação pode ser encontrada no premiado curta "Amanda & Monick", do diretor André da Costa Pinto, com quem tive o prazer de conviver em Campina Grande-PB. A relação entre professora-travesti e alunos e pais de alunos e família é um dos grandes exemplos de que há possibilidade de convivência respeitosa entre as partes. Vale lembrar: o pano de fundo dessa história é uma cidade do interior nordestino com no máximo 10 mil habitantes.

Por que a megalópole São Paulo, com mais de 450 anos, com mais de 9 milhões de habitantes de todas as partes do mundo, que se diz orgulhosa em receber a maior "parada gay" do planeta e os mais diversos profissionais de áreas super especializadas não tem a complacência e a vocação de discutir coisas tão simples quanto o próprio espaço de convívio. Será culpa da Internet, que nos impõe padrões e máximas que são apenas curtidas ou compartilhadas sem sequer serem questionadas? Ou a tendência de emancipação das almas nos levará até esse triste buraco negro?

Por muitas vezes, nos deixamos iludir pelo quadro geral e não nos centramos no cerne das questões. Ao ver o cartunista Laerte por em debate uma questão de direitos, ainda ganham mais espaço comentários do tipo: "Isso é uma bicha", "uma falta de vergonha", "isso é apenas um crime" e, por fim, "born this way", que ultimamente tem sido a frase pronta das massas homossexuais que se espalham por diversos guetos.

A questão não é ser gay. A questão é debater o espaço público, até onde vão nossos direitos, como aproveitar o mundo sem ultrapassar a barreira do vizinho. Para quem não entende de maneira clara, a questão é: Como aproveitar a Internet sem precisar roubar o sinal de weireless de alguém?

Garanto, dois banheiros, um masculino e um feminino, são suficientes para não precisar ser declarada a Terceira Guerra Mundial.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Quando a ética atinge a individualidade

O que difere as profissões, os termos que as definem ou vontade de fazê-las? Podemos supostamente nos tornar um outro profissional pela pura necessidade? Será que somos competentes o suficiente para nos tornarmos camaleões que vagam em várias nuvens?

Os estudiosos dizem que os profissionais da geração Y devem estar preparados para todos os desafios e com conhecimento suficiente para desatar qualquer embrulho. Cobra-se inglês, francês e espanhol, detalhes técnicos sobre o uso das redes sociais, sorrisos largos e muita gentileza. O novo profissional não pode ficar de banzo, como nos navios negreiros.

A ética, que debatida em várias esferas, durante séculos, não define até hoje o que é público ou privado, certo ou errado. Mas sobretudo, a discussão que menos prevalece dentre todas é: o individual e o coletivo.

Até que ponto nossas impressões pessoais são suficientes para garantir o nosso trabalho se quando falamos algo que corta os ouvidos de nossa hierarquia somos demitidos? Por que nos é cobrada essa autoafirmação, se no fundo temos autonomia apenas para obedecer?

O mundo se mostra cruel e ainda não tenho capacidade de entendê-lo por completo. Não posso assumir algo que se manifesta em minha essência, pura e tosca. Enfim, não posso envolver o que é alheio e, quem sabe por infortúnio, fazer perecer o que não é meu e ser responsabilizado por isso.

Um homem se torna homem pelos grandes feitos e sim pelo que assume não ser capaz de fazer.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Onde pousa o João de Barro

"Quando o João de Barro constrói a porta da sua casa contra o sol nascente é sinal de estiagem". Ouvi isso atônito em uma sonolenta manhã de sexta-feira na redação efervescente por pautas que justificassem o grandioso trabalho jornalístico. Encasquetei. De onde partem essas coisas e por que acreditar nelas?

Enquanto outras questões vinham à tona, o pequeno pássaro tão brasileiro bicava meu cérebro. Pensava no humilde sertanejo que tirava uma parte do seu tempo para perseguir ninhos de pássaros pela caatinga em busca de sinais. Depois lembrei do sítio da minha avó, na localidade de Gameleira, em Iguatu-CE. Ri quando mentalizei Dona Adelice correndo e levantando o vestido em busca de "sopros divinos" de um bom inverno.

No final das contas lembrei do que realmente mexia com o desatinado juízo. O quanto as sábias palavras dos mais velhos são importantes para mim. Sou dos que acreditam em teorias científicas, amigo de Charles Darwin e amante secreto das galáxias. Porém, me coloca em um estado de graça ouvir a sabedoria da maturidade. A arte das mãos da terceira idade, labirinto onde quase ninguém quer entrar.

Sempre transformei em filme os dizeres dos meus recém-velhinhos. Minha avó Rita cantava pra mim e me contava causos, em sua maioria fictícios, dos tempos de estradas barrentas em Assaré. Tudo era tão imaginativo e crível, que incorporei cada ensinamento no meu dia a dia e comecei a caminhar pelas estradas empoeiradas.

O meu lado vanguardista não me impede de ser do passado e honrar essa parte que grita em mim. Se estão errados, eu não sei. Quem saberá com toda a certeza? Reza a lenda de que um curioso marginal se dedicou às enciclopédias para desmentir as verdades melindrosas. No fim, bebeu as teorias com cana.

'Ó, João de Barro. Quando não tiveres lado para colocar a porta de tua casa, não se sinta envergonhado de pousá-la em minha janela'.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Daniela

Jaqueta de couro. Unhas afiadas. Ela desfila sensualmente no palco das expectativas onde não sabemos o que vai dar certo nem nos centímetros que tem o nariz. Desbrava as sensações. Sua frio. Mas desfila soberana. É uma mágica. Mágica sob a alcunha de Daniela. Trabalha em um circo, que para os mais críticos seria de quinta categoria, mas para mim, eterna criança, é a melhor das diversões de uma noite de sexta após ter a pupila dilatada ardorosamente por uma balconista nem tão sexy quanto a personagem desta história.

Ela tinha que fechar a semana onde tudo começou de um jeito e terminou de outro. Coisas dos homens que por machismo ou ganância não se permitem um salto alto vez em quando. Sei que nem todos se empolgaram com a astúcia de Daniela. O Mister M já fez questão de escancarar a verdade que habita os truques: a inocência. Mas mesmo assim, a moça de roupa preta não se intimida e parte pra cima da plateia.

Como naquela música "Yoü and I", da Lady Gaga, as coisas aconteceram. Cabeça de um lado, corpo de outro. Cair em garras afiadas e flamejantes já não era impossível. E o inesperado-esperado acontece: ela surge do fundo da plateia, nos exigindo pensar que toda a magia é de verdade. Desfazendo aquela boba ilusão de que ela teria ido embora, de vez, para não voltar...

Daniela teve várias notícias, de toda natureza. Foi criança, jovem e mulher. Aprendeu seu ofício e quem sabe casou. Descobriu a felicidade e depois de um tempo percebeu que ela não era tão valiosa. Desejou ser quem não era e foi, mas voltou. E estava de novo ali no palco. Desafiando a quem a intimidava. Vencendo o jogo dos mais fracos.

A mágica era como uma pena. Uma verdade. Melhor dizendo, a mágica era o imprevisível. Aquilo que temos certeza que vai acontecer, ou numa súbita maldade, desejamos que ela venha à tona para saber qual a sua explicação. E ela vem. Pena que nem todos podem contar com uma fortaleza. É bom enxergá-la de longe. Protegido pelo que eu sempre quis de escudo.

Essa semana, Daniela se apresentou pra mim e uma dúzia de pessoas. Na outra, quem dirá?! Quem queimaria a mão e afirmaria ser o próximo?! Sua essência tem grandeza. Suas vontades não têm lei. Guarda consigo a iminência e a amargura. Aguarda com sede o aplauso e o riso macabro, de quem fez o mundo ao avesso e você nem reparou.

Para a vida, um banho de experiências. Contra o imprevisível, só a morte.

"Au revoir!", disse ela.

P.S. 1: Apesar da coincidência, este texto não é direcionado a minha linda amiga-presente-tudo-de-maravilhosa Daniela Castro. Ela terá um texto mais adiante.
P.S. 2: Esse texto é dedicado exclusivamente ao Jacaré do Açude Velho, que nos deixou na tarde deste sábado (14). Sentirei saudades. #

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Cadê o pão quentinho da manhã?!



"Jovens matam hábito de comprar pão pela manhã", gostei da manchete. Aliás, é iminente a paixão brasileira pelos títulos dramáticos, que respingam sangue. Queremos roer as notícias, tirar delas as entranhas, mastigá-las e expeli-las do nosso corpo. É até saudável em dias de tormenta. Mas vamos lá, o objetivo deste ressurgimento ainda não é esse.

Quem de nós, enquanto seres pensantes, acompanhamos nossos avós e pais irem até a padaria da esquina, por volta das 6h da "matina", para comprar uma sacola de pães. Uhmmm! O cheiro do pão quentinho tomando conta do mundo e todos em casa com a louca vontade de devorá-lo, banhado na manteiga, com uma xícara de café doce. Confesso ser a ponta do pão minha fatia favorita (motivo de muitas brigas durante a tenra infância).

Sempre achei o ritual de sair cedinho da cama, sem os primeiros raios do sol, ir até o boteco mais próximo, encontrar os rostos dos vizinhos, o cantar do galo, o baixo movimento, um dos momentos mais charmosos do dia. Tem gente que prefere a tarde, outros a madrugada. 

Mesmo criança via naquilo tudo um momento muito exótico do dia. Pedia que meu pai me acordasse por volt das 5h30 só para subir na garupa de sua bicicleta até o mercado da cidade. No caminho conversava com os pombos. 

Não acho pretensioso pensar, em meados do século XX, mulheres elegantes, com seus terninhos bem passados, Avon no rosto, indo até a padaria "colher" o pão e o leite do dia, aproveitando-se desta rara oportunidade para caçar olhares despretensiosos de certos galãs do bairro. Também imagino os homens de boa compostura na década de 1930, debatendo Getúlio e a Guerra nos balcões das confeitarias. 

Penso no cuidado que os franceses tiveram por tantos anos em preparar o melhor pão do mundo (daí o nome do pão mais consumido no Brasil, conhecido pelo miolo branco e a casca dourada) e oferecer-lhes a Napoleão. Como o intuito de imaginar é de graça, vou mais longe, há 12 mil anos atrás, na Mesopotâmia. Imaginar que uma desventurada mistura de farinha de trigo e água já fosse uma grande celebração.

É uma pena chegarmos em um estágio evolutivo tão retumbante, onde tudo se encontra mais fácil e damos nossas tripas com a desculpa de que o trabalho nos trará os melhores momentos da vida e deixarmos passar despercebidos certos hábitos tão clássicos para o desenvolvimento intelectual. Comprar pão de manhã, bem cedinho, representa muito mais que uma mera simbologia comercial.

O primeiro jornal deveria ser aquele que encontramos na esquina. O dia a dia dos que estão ao nosso redor. Que cruzam a mesma calçada, bebem a mesma água, sofre a mesma queda de energia, reclamam das mesmas coisas. Depois viria o "Bom Dia Brasil". Vivemos uma internacionalização existencial jamais vista. Enxergamos um semelhante há 2 mil quilômetros de distância e nem sabemos qual o nome do nosso vizinho de parede.

Até que um dia, como as impagáveis máximas da vida, nos damos conta de que tudo que nos foi sugerido para comprar foi em vão e que hoje quem nos faz falta é aquele sujeito esquisito que mora ao lado (e não é o pecado). Sentimos saudades do velho pão fresquinho, banhado na manteiga e uma boa xícara de café.

Ai Gisele Bündchen, parece tão fácil né?!

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Jean Meslier, o padre ateu

França do Século XVII. Numa peqeuna aldeia no norte das terras do "Rei Sol" nascia um homem que por si só era uma própria contradição. Em termos atuais ele com certeza seria inaceitável em qualquer convivência social, visto que atualmente as pessoas estão bem mais preocupadas com a personalidade e conceitos dos outros, literalmente sem olhar para o próprio rabo. Sua maior contradição era ser um padre que não acreditava em Deus. Mas como assim?

Fiquei intrigado quando vi uma resenha no site da Folha sobre o livro "Ateísmo e Revolta" do doutor em filosofia Paulo Jonas de Lima Piva que conta a história e, principalmente, os conceitos pré-comunistas e ateístas de Jean Meslier (1664-1792).

O clérigo foi um dos mais influentes precussores do Iluminismo, que tinha como principal guia a busca pela racionalidade, além do materialismo.

Dentre seus discurssos inflamados podemos encontrar "broncas" contra as injustiças sociais e "peiticas" de Luís XIV, a exploração dos oprimidos, a dogmação da criação do universo, o poder das divindades e suas transcendências, os profetas, os santos, a religião católica, dentre outros assuntos.

Sobretudo Meslier foi um materialista que acreditou piamente que tudo foi originado da própria evolução da natureza. De praxe sempre disse que nada se sobrepunha ao plano físico e concreto.

Ele foi além ao definir Jesus Cristo como "louco, fanático, ignorante e charlatão, como um indivíduo astuto que se aproveitou da credulidade e do desespero de pessoas ignorantes para estabelecer o seu império".

Todos esses argumentos podem ser encontrados em diversas obras feitas sobre a vida de Jean Meslier, mais específicamente numa coletânea de cartas escritas à punho, chamadas de "Cartas aos Curas" (1720).

Acredito que todos os caros leitores ainda fazem a mesma pergunta do começo desse texto: "mas por quê?". A resposta é a mesma que foi dada a milhares de perguntas sobre a humanidade: a intolerância.

Não existia opção para um jovem pobre da sociedade hierarquizada da "idade das trevas" que buscava sobretudo sobrevivência e educação. Por mais que concordem ou não com a atitude de Jean Meslier em permanecere durante toda sua vida defendendo algo e praticando outra coisa, todos devem se espelhar no exemplo deste rapaz de não abrir mão do que você pensa ou acredita para não bater de frente com os dogmas da sociedade. Apesar de combater essa prática Meslier foi um grande "charlatão" que soube como ninguém se utilizar de um meio prático (sua sobrevivência) para fazer prevalecer seus conceitos. Esse jovem radical, apesar de não ter o devido reconhecimento, foi um dos pilares de diversos estudos posteriores sobre a sociedade. Referência para gente como Bakunin, Sade, Marx e por aí vai.

Ser rebelde é remar contra a maré? Jamais! Rebeldia é nadar junto com a maioria e fazer valer sua vontade sem derrubar uma agulha!

Sejamos cada vez mais inteligentes.

"Amém!"

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Luciana e as Novas Tecnologias

Consultando meu honorável “Te dou um dado?” (http://tedouumdado.virgula.uol.com.br/) me deparei com um comentário feito pela Polly sobre uma descoberta do mundo virtual. O blog de Luciana. Sim, ela mesmo, a menina da cadeira de rodas de Viver a Vida.

Primeiro ri pencas como a mocinha conheceu essa tecnologia (dada de presente por sua irmã adotiva Mia). Polly registrou o diálogo:

- Isso é um blog? (Não uma máquina de lavar!)


- Sim, um blog é onde você anota seus pensamentos. (Nooosa!)


- Nossa, que legal e moderno! Sempre tive diários. (e moderno? Já pensou quando ela descobrir o Twitter)


- E você sabia que existe gente que vive disso? São chamados blogueiros. (Tipo quem? Tessália?)


- Nossa! (Pausa dramática!)

Só que a historinha não para por aí. O blog da personagem de Alinne Moraes existe de verdade. Lá a heroína do Brasil conta seu dia a dia com muita melancolia e (lógico!) muita tosquice. Deus me perdoe, mas as confissões são de matar...

Leia alguns pensamentos que Luciana anotou em seu blog:


“Sou Luciana Saldanha Ribeiro, carioca, modelo e... cadeirante. “


“Tive uma infecção urinária séria, que me deixou internada novamente no hospital. Achei que nunca mais voltaria àquele lugar e estou um pouco abatida com tudo isso. Estava indo tão bem até agora… Todos os médicos afirmaram que infecção urinária é muito comum em pacientes como eu, tetraplégicos.”


“Dr. Alexandre, meu fisiatra, me explicou que a infecção é um problema comum devido às nossas bexigas neurogênicas.” (Como Lu decorou isso? Se ela recebeu o texto ontem à noite!).


“Quero inaugurar meu diário virtual com uma poesia que me veio à cabeça quando consegui ficar sentada na beirada da cama pela primeira vez, ainda no hospital”. (Que ternura!).


“Esse blog é um presente para você, minha querida irmã. Espero que, aqui, você deposite toda a sua sensibilidade e seus sonhos! Veja as primeiras fotos do ensaio que você realizou no estúdio da Ingrid. Olha como ficaram bacanas! De sua irmã, Mia” (Olha que merchandete!).


E pra concluir:  “É o que vivo repetindo para mim diariamente: “Coragem, Luciana!”.

Só sei que a partir dessa experiência vou me dizer diariamente: “Coragem AldeiaCult!”

Se você é igual a São Tomé, só acredita no que vê, acesse www.sonhosdeluciana.com.br! Mas não esqueça o lenço...

domingo, 31 de janeiro de 2010

Que bom que eles assistem “Crepúsculo”


A palavra preconceito (de maneira literal) nos mostra aquilo que julgamos de forma antecipada. O verdadeiro odeia jerimum sem nunca tê-lo provado. Infelizmente ninguém vive sem ser coberto pela extensa capa negra do preconceito. Por mais que existam campanhas intensas de que devemos olhar a todos como iguais, sempre há aquele pequeno pontinho que nos agradas nas atitudes e gostos dos nossos “semelhantes”.

Mas vamos ao que interessa. Influenciado por pensamentos e atitudes de um clã intelectual sempre achei um absurdo a galera teen viver naquela pilha de “Crepúsculo”. Idolatrando. Talvez também porque sempre achei a unanimidade burra. Porém tive a oportunidade de (mais ou menos uns dois anos atrasado) assistir à primeira parte da adaptação dos livros da escritora americana Stephenie Meyer. Juro que me impressionei e fiquei absurdamente feliz em ver a moçada, que já é tão desacreditada, estar consumindo esse tipo de arte.

Stephenie nem completou quarenta anos e já vendeu mais de 85 milhões de livros em todo o mundo. Talvez sua infância pacata na cidade de Phoenix serviu de espelho para construção da mocinha Bella. O ímpeto de seu irmão foi o mote para a construção de um “tímido” Jacob. Quem sabe a descoberta de um novo lugar como Provo, onde cursou Literatura Inglesa não serviu como pano de fundo para as verdadeiras mudanças de vida.

Contudo nada é mais fascinante e inquietante do que a construção de Edward. Longe de mim ter me rendido ao “encanto” de Robert Pattinson. Mas a desconstrução daquele mito sobre a figura dos vampiros nos remete ao ponto inicial dessa discussão. Por que somos tão avessos às diferenças? Por que o “herói” de Crepúsculo se espanta tanto quando sua amada não acha estranho seus modos? Por que temos que nos manter num “trono supremo da raça humana” e achar que a família que existe nos comerciais de margarina é a nossa meta de vida?

Diferentes não querem ser iguais. Diferentes querem apenas existir como eles próprios. 

Poucas vezes vi um personagem tão bem construído (aplausos para o jovem Pattinson, que com certeza ainda dará muito o que falar) e fico extremamente feliz por saber que milhões de jovens em todo mundo (apesar de às vezes nem entenderem todas essas questões envolvidas no dilema dos “new waves” vampiros) podem ter contato com esse tipo de referências. E desejo a todos eles que não deixem de comprar os exemplares da saga. A arte é uma das poucas metamorfoses independentes, que faz uma obra renascer sob várias circunstâncias com pequenas nuances ópticas.

Ansioso para ver “Lua Nova”!

sábado, 3 de outubro de 2009

"I have a dream, a song to sing"

Talvez eu nunca pensasse em realizar o dia mais feliz da minha vida. Mas quem tem fé nessa vida sabe bem que certa hora esse momento chega, e quando você menos imagina se torna concreto bem à sua frente.

O que fazer? Como reagir?

Tudo começou no ano de 1992. Eu, ainda com cinco anos não tinha noção alguma a respeito daquilo que definiria minha personalidade. Quais seriam meus gostos, minhas vontades, minhas metas, meus sonhos. Talvez a única imagem que tenha daquela época na memória é uma partida de basquete. Brasil e alguma seleção. Jogo válido pela competição de Basquete de Barcelona 92. Não lembro se os "canarinhos" levaram a partida. Talvez não, já que a campanha brasileira não foi grande coisa.

Porém, aquele instante, aquela imagem com certeza iria me provocar a busca de muitas outras iguais. Como os grandes e verdadeiros amores, o espírito olímpico me arrebatou de certa forma que nunca mais vivi sem ele.

Os grandes momentos, a sagas olímpicas se confundiram com minha própria história de vida em muitos momentos.

Lembro-me da pequena casa do "Vintém", onde brincava de ser repórter em Atlanta 96.Das medalhas da natação, da final do Vôlei de Praia feminino, das dores causadas por uma caxumba surpreendente, da briga contra as cubanas que não vi, do sabor do recém-nascido miojo.

Sydney 2000 era a fase da adolescência, jogos na "madruga", época de eleição, brigava por uma legenda mesmo sem ter título de eleitor, o ouro que não veio, o bronze do revezamento da natação que descobri um dia depois (a primeira medalha do Brasil), muitas festas em Iguatu, a prata do atletismo, a primeira paixão, o refugo de "De Ruet".

O pré-vestibular e Atenas 2004. Fugindo das brigas da minha mãe pela perda de três semanas de aula na véspera do vestibular. Da cerimônia de abertura remontando a Grécia Clássica, do ouro do vôlei masculino, das vitórias na vela, do gel pesado no cabelo (que perdura até hoje), do atentando ao maratonista Wanderlei.

2008 aconteceram as minhas "Olimpíadas Universitárias". Pequim se misturava com o término da faculdade de jornalismo, o estágio no SESC, a formatura e a falta de sono. Mais algumas aulas perdidas, a produção de um super evento sobre cultura alemã. Tudo se tornou bem mais feliz com as medalhas de Cielo, o acesso à internet, as lágrimas das mulheres vencedoras, os võos de Bolt e Phelps. Tudo virou história. Tudo complementou a minha própria história.

E no meio de tudo isso, Jogos de Inverno, Pan Americanos, Jogos Asiáticos, Universiades, Comunidade Britânica, Sul-Americanos. Assuntos que me fechavam numa "espiral do silêncio". Só eu que falava daquilo, só eu me interessava por aquilo.

No fundo do peito, uma angústia:

- Meu Deus, será que nessa vida vou poder ver Jogos Olímpicos no meu amado país?

Nessa sexta, 02 de outubro, às 13h51 Ele se manifestou por meio da voz do presidente do COI (Comitê Olímpico Internacional) Jacques Rogge:

- Rio de Janeiro!


Sim. Deus me disse sim! Chorei como um menino. De joelhos e aos soluços agradecia com os indicadores apontados para cima.

Um momento nem tão interessante para muitos, pode representar uma imensa constelação para milhares. Para mim, uma das mais belas páginas do meu trajeto nessa vida.

Agora temos em nossas mãos essa grande chance. O sonho de meninos Marlos, Josés, Joãos, Sandras, Gabrielas, Yuris, Amandas... que se espalham por este país.

Peço a todos os brasileiros que saibam respeitar essa oportunidade. E que saiam dessa posição recalcada de apenas denegrir a nossa imagem.

Aqui não vai haver nada de "Tiro ao Turista" ou "Assaltos Ornamentais". Aqui veremos muito trabalho e vontade de mostrar ao mundo que poderemos ser os reis dessa terra, por ao menos 15 dias.

Estou aqui, à disposição, de fazer dos jogos olímpicos Rio de Janeiro 2016 os mais importantes da história. Um divisor de águas tanto para a história do esporte e do movimento olímpico como para a construção de um novo país.

Mais do que nunca, É A VEZ DO RIO! É A VEZ DO BRASIL!